Imagens gravadas no Estudo Ocasião realizado no Ágora Teatro, em dezembro de 2019. Poema falado por Gianfrancesco Guarnieri/ Extraído do Documentário “Guarnieri” de Francisco Guarnieri

Do Canto ao Grito

Por Rogério Tarifa

Outro dia ouvi uma frase que continua comigo
Uma chama não perde nada ao acender a outra
E de repente ao ouvi-la me vi constrangido ao me olhar
me ver e me perceber artista
Sim
Essa tem sido a questão faz algum tempo
Uma queda tão profunda quanto o exílio de Dionísio no fundo do mar
Mas diferente do Deus, uma vez dilacerado, não tenho mais volta.
Somos efêmeros. E essa tem sido a questão faz algum tempo
Outro dia li um texto que se chama hino à vida
e as palavras são uma declaração de amor entre dois amigos(as)(es).
Gostaria de escrever todo o texto aqui, mas infelizmente ainda não sei inteiro
Lembro uma frase: Amigo, se já não tens mais a alegria pra me dar, tudo bem me dá tua dor
E essa tem sido a questão faz um tempo
Me vi artista e não quis mais ser
Pois não encontrei na arte e nos artistas(es) desse tempo a materialização dos motivos que me fizeram e me tornaram artista.
Não vi solidariedade
Não vi amizade
Olhei pra rua e vi isso nas pessoas que passam, não vi nos fazedores, ou nas galerias dos teatros
Lembro agora de uma outra frase que alguém me disse um dia
Para ser solidário é preciso correr os mesmos riscos
E essa tem sido a questão faz algum tempo
Não
Eu não sou o Guarnieri
Não
Nós não somos o Vianninha
Não
Eu não sou o Chico de Assis
Não
Nós não somos o Fernando Peixoto
Não
Eu não sou o Abdias do Nascimento
Não
Eu não sou a Renata Pallottini
Não
Nós não somos a Consuelo de Castro
Não
Eu não sou a Leilah Assumpção
Não
Nós não somos a Heleny Guariba
Não, eu não sou
E também nunca cantei
Quem me conhece sabe que isso é verdade
Essa geração que admiramos tanto e
que nos possibilitou a possível liberdade que temos hoje
É a geração do Canto
Já nós nascidos pós década de 60, 70, 80, 90, 2000, 2010, 2020…
Nos restou o GRITO
Vivemos a transição do canto ao grito
É como se Dionísio estivesse no exílio
Há anos estamos vivendo o seu exílio
Tem uma imagem linda
Que mostra que quando Dionísio se exila
No fundo do mar
Toda a terra que está acima do mar
Seca
“ Esse mundo merece um não.”
“Viver hoje é negar tudo o que a burguesia oferece,
Inclusive o que é bom.”
“Não existe a possibilidade de arte dentro do sistema capitalista.”
“A esmola é o preço da culpa.”
“A liberdade é uma prática que só se realiza no coletivo.”
“A velhice é a saudade de mim mesmo.”
“Os outros que falem mal da arte eu devo tudo a ela.”
“O artista(a)(e) é quem registra o tempo da história.”
“O teatro tem o tempo do amor.”
“E o nosso grito é um grito de esperança.”

Esse texto, além dos meus escritos, trás memórias, citações e emoções de vários artistas(es) que passaram pelo nosso caminho desde que nos debruçamos a malhar o couro do texto “Um Grito Parado Ar”. É dedicado a Marilda Alface, Rodrigo Mercadante, Gianfrancesco Guarniere e aos meus amigues de arte, desta e de outras jornadas, ao público que nos acompanha, única razão de existirmos e que me abraça com a alma cuidando de mim para que eu nunca deixe de acreditar no teatro, na arte e no outro(a)(e). Aos meus parceires de Teatro do Osso, a quem larguei tudo e todes, nesses últimos 6 anos, me agarrando só ao Osso na busca de uma só coisa: a amizade.

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VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Por Isadora Títto

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amiga do diretor
Terei o público que quero pagando inteira
e viajarei com a peça pelo país
com nove sessões semanais:
terça, quarta, duas sessões na quinta,
sexta, duas sessões no sábado
e duas no domingo.

Este é um anti-cenário!
Então seguimos pagando pinga para o eletricista
enquanto a light vem e corta
sem conversa!
O teatro profissional se avoluma
feito curva de rio
precarizando sua estrutura.

As/es/os artistas que responderam a nossa pergunta “O que significa fazer teatro de grupo?” são essas/es (por ordem de aparição no áudio):

Leandro Lago (Teatro Studio Heleny Guariba), Dulce Muniz (Teatro Studio Heleny Guariba), Vera Lamy (Companhia do Feijão), Pedro Pires (Companhia do Feijão), Thiago Mota (Núcleo da Maré ao Luar, Cia Navega Jangada de Teatro, Coletivo Amapola de Teatro e Poesia Urbana e Cia. Pic Nic), Sofia Botelho (28 Patas Furiosas), Aline Machado (Cia. do Despejo e Coletiva Caixa de Pandora), Roberto Ascar (diretor, ator e produtor de teatro) e Giu Castro (Coletivo Karenin e Teatro Labirinto).

Este projeto foi realizado com apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura.

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