“Não podemos ter medo. Não podemos ter medo do açoite, não podemos ter medo da bala! Eles não vão viver alimentados do nosso medo.
A gente tem que lembrar dos nossos. A gente tem que lembrar dos mortos, porque esse é o trabalho dos vivos. E esse trabalho não é um trabalho perdido.”

Débora Maria da Silva, em discurso para o filme “Apelo” (2014)

O GRITO MUDO

Por João Victor Toledo

Milhares eu perdi assim.” É com essa frase que a personagem Flora inicia um dos momentos mais emocionantes da peça de Guarnieri. Flora, interpretada nas primeiras montagens por Assunta Perez e Liana Duval, é a atriz mais velha daquela sala de ensaio; uma atriz de um tempo anterior ao ano de 1973, capaz de interpretar grandes personagens de textos clássicos.
Nesta cena, Flora é a mãe de todas as pessoas que tiveram suas vidas abreviadas por regimes autoritários. Imbuída de um amor imperecível, ela nos remete imediatamente à figura de Nossa Senhora e nos lembra também de outras tantas personagens inesquecíveis, como as matriarcas de Lorca e Jorge Andrade, e de atrizes como Anna Magnani e Lélia Abramo, a primeira Romana de Eles não usam black-tie. Flora não é uma mulher do nosso tempo, é uma sabedoria antiga passada de geração em geração, o eco nas paredes de um teatro em decomposição que resistirá a ele.

Flora é o gesto imortalizado pela esposa de Brecht, Helene Weigel, a primeira Mãe Coragem, que, após ser forçada pelos soldados a reconhecer o corpo do filho morto, se vira para a plateia e traduz, num grito mudo, a incapacidade de se vocalizar tamanha dor e injustiça. É como Sophie, personagem interpretada por Meryl Streep no filme A Escolha de Sofia, que também grita em silêncio ao ver a filha ser levada à morte por soldados nazistas.

Flora é mais uma entre as centenas de mulheres de pé nas enormes filas em frente às penitenciárias, entre as milhares atiradas sobre os caixões dos filhos mortos nas chacinas Brasil afora. É a mãe que viverá “até o dia em que retornem todos e façam a maior algazarra e comam toda a minha sopa.”

“Sempre senti uma conexão especial com mães. Gosto de observar seu cuidado atento com as crianças e seu estado de presença mais dilatado. Imagino que ser mãe deva ser uma experiência bastante particular e sei que muito do que vejo talvez seja apenas idealização minha, mas, de todo modo, reconheço em mim uma alegria verdadeira quando estou na presença delas e desde sempre me senti instigado por essas personagens na literatura, no teatro e no cinema. Talvez isso seja reflexo de um desejo velado de poder um dia experimentar essa força avassaladora que chamam de “instinto maternal”. Talvez seja apenas expressão do amor imenso que sinto pela minha própria mãe.”

Relato de João Victor Toledo

AS MÃES CORAGEM

Por Vive Almeida

Nosso desafio em imaginar a montagem do espetáculo nos dias de hoje era o de transpor tamanha emoção e representatividade de uma história tão potente e que aconteceu num período tão relevante como o da ditadura. Logo que entrei em contato com o texto na primeira leitura, foi essa a cena de destaque no meu imaginário íntimo. Talvez pela identificação com a força do discurso da personagem… talvez pela empatia com o enredo da cena.

Flora é uma mãe que perde seu filho pisoteado em um ataque violento da polícia. Quantas vezes essa história se repetiu? Quantas vezes ela ainda se repete? Quantas vezes deixaremos que ela se repita? O desafio então era imaginar onde essa história se daria hoje… não foi muito difícil de imaginar. Ela está no morro, nas ruas distanciadas dos grandes centros.. Ela está no interior das comunidades onde o extermínio é velado e a ditadura ainda não acabou.

A segunda pergunta que não saía da mente era: Quem são as Floras de hoje? Por conta do trabalho em uma exposição de arte em 2014, pude conhecer a potência de mulher que é a Débora da Silva, mãe integrante do Movimento Mães de Maio. Naquela ocasião Débora fazia seu “Apelo” em uma vídeo-performance, repetindo inúmeras vezes que “não podemos nos esquecer de nossos mortos, que temos que bradar os nomes deles, que eles não são pessoas desaparecidas, porque eles existem enquanto seus nomes puderem ser ouvidos e repetidos por nós.”

A figura de Débora, de todas as Mães de Maio e também as Mães da Praça de Maio nos fazem refletir sobre o destino que os filhos que lutaram ou que fizeram parte de um momento importante da nossa história estão encontrando em nossos países. Refletir sobre Flora, Helene, Débora e todas as nossas mães é refletir sobre o futuro das nossas escolhas, é refletir sobre nossa própria história e sobre quais são os nomes que você vai escolher ao recontá-la a quem ainda não nasceu.

Relembrar a história dessas mulheres na cena e aqui, nessa exposição, me faz entender mais uma vez por que escolhi o caminho da arte para dar o grito que tantas vezes fica preso em minha garganta… e que dessa vez espero que não seja mais “Um Grito Parado no Ar”…

Conheça mais sobre as Mães de Maio clicando neste link:
https://www.facebook.com/maes.demaio/

E sobre as Mães da Praça de Maio, na Argentina, clicando neste link:
https://madres.org

Assista ao documentário “Todos son mis Hijos”, sobre a Mães da Praça de Maio, clicando neste link:
https://youtu.be/1QUmcswORJc&t=1s

POEMA PARA DEBORA

Existem as que vieram antes de mim
Existem as que vieram antes de você
Existem as que vieram antes de nós

Este é para elas, para nós

A boca que beija é a mesma que prova a sopa
O braço que dá colo é o mesmo que torce a roupa
A barriga que gera é a mesma que se molha no tanque
A mão que afaga é a mesma que limpa o sangue

Na minha memória fica seu Apelo
Nos meus dias, fiz dele o meu desejo
No meu trabalho realizo o Ato de Gritar
E quem sabe um dia a sociedade “Pare de nos Matar”
e resolva nos escutar..
Vive Almeida, maio de 2021

Debora Silva Maria é uma ativista dos direitos humanos , fundadora do movimento Mães de Maio, que denuncia e apura independentemente casos de violência policial no Brasil. 

Debora Silva Maria decidiu liderar a fundação do movimento Mães de Maio, em 2006, após policiais assassinarem seu filho, o gari Edson Rogério Silva dos Santos, de 29 anos, em um posto de gasolina, em Santos. O assassinato ocorreu em 15 de maio de 2006, no contexto de uma série de chacinas promovida pela polícia, conhecida como Crimes de Maio

O Mães de Maio surgiu inicialmente contra a impunidade dos policiais envolvidos nas chacinas de maio de 2006, mas atualmente participam do movimento familiares de vítimas de outros episódios de violência policial no Brasil.

Este projeto foi realizado com apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura.

Deixe sua mensagem