Sobre a pesquisa da dramaturgia escrita por mulheres brasileiras, ou o desejo de um dia não sermos subcategoria.

Por Isadora Títto e Maria Loverra

“Por ‘escrita da mulher’ entendo que há um deslocamento de perspectiva; olhares a partir de finas angulares cujo prisma perpassa por diferentes maneiras de se apreender o mundo (…) O que se entende por mulher vai além do fato fisiológico, mas como a sociedade interpreta a mulher. Tais valores são históricos e engendram em seu cerne as relações humanas e as concepções de mundo que norteiam a sociedade no decorrer do processo de construção de uma cultura tal como ela se apresenta no presente. A mulher é designada como Outro, aquele que só se faz existir através de seu duplo transcendente ao qual lhe é subordinada: ao homem”

[Marina Costin Fuser na Tese Palavras que dançam à beira de um abismo, Mulher na Dramaturgia de Hilda Hilst]

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Desde a elaboração deste projeto, iniciada em 2017, diagnosticamos a necessidade e urgência em trazer para o estudo bibliográfico e prático a dramaturgia escrita por mulheres. Na verdade, pensando melhor, tudo começa com nosso encontro na antiga sede do Humbalada, com a atriz, pesquisadora teatral e arte-educadora, integrante da Kiwi Cia de Teatro, Fernanda Azevedo. Nos reunimos na ocasião dos Seminários e ocupações que realizamos dentro do projeto “Canto Para Rinocerontes e Homens”, contemplado pelo V Prêmio Zé Renato. A Fernanda nos disse: “A gente tá falando aqui, e temos a oportunidade de entrar em contato com Lélia Gonzalez, por exemplo, mas quem aqui estudou ou ouviu falar da Lélia Gonzalez na escola? E o que dizer de todas as outras mulheres que não se aproximaram da academia e que foram extremamente importantes para nossa resistência e que sofreram e que sofremos hoje por seu apagamento?”

Essa fala nos leva para outra lembrança que nos revela o verdadeiro início, que se deu na Escola de Arte Dramática da USP (a escola que nos formou e nos uniu enquanto grupo), quando em uma das salinhas de teoria, a Vive Almeida, integrante e co-fundadora do Teatro do Osso, irrompeu uma conversa pedindo representatividade no então projeto que estávamos desenvolvendo e dos nomes que estávamos levantando para esses encontros. Até aquele momento, só tínhamos levantado nomes de homens brancos. O resultado da fala da Vive e da aderência de todas/os, nos levou a reelaboração da nossa conduta, integrando no projeto os seminários:“As Mulheres e o Silêncio da História, com Fernanda Azevedo, “Imagens de Brasil: raça, gênero e identidade nacional”, com Hélio Menezes, e a conversa “O corpo que habito: perspectivas sobre gênero, sexualidade e arte com Jacqueline Moraes Teixeira.

Aquele grito da Vive Almeida reverbera até hoje.

A partir dessa trajetória, que se intensifica e se expande cada dia mais, ficamos impressionadas/os com a quantidade de obras dramatúrgicas excluídas sumariamente da nossa bibliografia escolar e acadêmica, e do nosso imaginário enquanto artistas, público, e cidadãs/cidadãos, resultando na não montagem de suas peças, e no apagamento de pontos de vistas que representam mais da metade da população do nosso país.

Que violência é essa que exclui esses nomes e vivências do campo político e poético das nossas vidas, como se elas não tivessem sido agentes da construção e resistência teatral-artística brasileira?

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POEMA PARA ELA

No nordeste do mar Egeu
montada em palavras
ergueu-se a Mulher
pela milésima vez renascia
Renata

Do Bixiga que abriga
a vila operária
enxame de abelhas
e a erva mística
zedoária

Rosa dos ventos, clepsidra
moira selvagem, o destino criado –
o amor, o cão
e o corinthians

CORO: Ela já viu coisas demais!

Na ancestral vereda
das mulheres
que amam mulheres
Édipo é o rei cego
e Safo, a sábia lira

Enquanto se vai morrer
dentro do arcabouço da rainha
uma serenata para
as companheiras de cálamo:

Consuelo-viajante
Leilah com “H” Assumpção
e Hilda Hilst, obscena e lúcida.

Para Elza Cunha de Vincenzo,
o vinho, a vinha e a poesia!


À Renata Pallottini,
flores amarelas
de Isadora Títto e
Maria Loverra

Essas entrevistas foram captadas por Isadora Títto e Maria Loverra entre os anos de 2019 e 2021. Vocês ouvirão as entrevistas concedidas pelas seguintes mulheres (por ordem das apresentações no áudio):

Dione Carlos, Carol Pitzer, Badi Assad, Maria Shu, Vana Medeiros, Paloma Franca Amorim, Mariana Bizzotto e Fernanda Azevedo.

Este projeto foi realizado com apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura.

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