VIVER E LUTAR PELA LIBERDADE

por Rubens Alexandre

A palavra liberdade se tornou em nossos tempos uma ideia vaga e de fácil apropriação por aqueles que com seus atos visam exatamente miná-la. Impor violentamente suas agendas conservadoras e reacionárias se valendo de distorções argumentativas e utilizando o caos como escada.

Seja em 64, seja nos tempos atuais, as elites conservadoras na intenção de frear avanços que colocariam em cheque a perpetuação de seus privilégios, entregam o país na mão de repressores.

Qual o tamanho do atraso e do prejuízo causado por tal atitude? Sofremos de estagnação nacional e até mesmo retrocesso em alguns casos como na educação, na cultura e no meio ambiente.

As figuras evocadas nessa sala nos lembram a todo instante da necessidade de não esmorecer frente às atrocidades.

Heleny Guariba, atriz, diretora e ferrenha opositora ao regime ditatorial foi covardemente torturada e assassinada em razão de sua luta. Cantamos aqui em homenagem a ela. Trazemos falas de Dulce Muniz e Adriano Diogo nos lembrando a importância do exemplo e do legado deixado por Heleny.

Para nos ajudar a compreender o passado e como transformar o futuro ouvimos as vozes de Amelinha Teles, Adriano Diogo, Tin Urbinatti, César Vieira, Celso Frateschi e o saudoso João das Neves, que nos deram a alegria de em algum momento cruzar o caminho do Teatro do Osso.

Evocamos a figura de Abdias Nascimento e sua incansável batalha pela igualdade de oportunidades entre brancos e negros. Após seu trabalho com o Teatro Experimental do Negro, se recolhe no exílio após o Ato Institucional nº5 e volta ao Brasil nos anos 80, a partir daí agindo também na política. Caminho seguido por Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018 em razão de sua combatividade. 14 de março aliás, data de nascimento de Abdias e também de Carlina Maria de Jesus, escritora que deu voz à realidade da favela e rompeu preconceitos.

Fazendo a ponte com a dramaturgia do “Grito Parado no Ar” de Guarnieri, temos a leitura de uma cena do espetáculo na qual o elenco improvisa uma cena de tortura contra um rapaz nordestino.

Falamos também das dificuldades e contradições contidas no ato de ter um grupo de teatro nos dias de hoje e sobreviver em meio a lógica do capital, que nos faz mergulhar na competitividade desmedida em busca das escassas verbas que nos são relegadas.Verbas essas conquistadas as custas de muita luta da classe artística e que hoje se veem em constante risco de extinção.

Um novo mundo fora da lógica predatória é possível. A vida e o exemplo das pessoas aqui citadas é a prova disso. Cabe a nós ouvi-los e entender qual é o nosso grito hoje.

O SANGUE E A ESPERANÇA POR ABDIAS NASCIMENTO


Corre corre o sangue nas veias
Rola rola o grão das areias
Só não corre só não rola a esperança
o negro órfão que só corre e cansa

Cansa do eito corre das correntes
Corre e cansa do bote das serpentes
Só não corre só não cansa de amar
O amor da Mãe-África no além-mar

Além-mar das águas e da alegria
Mar-além do axé nativo que procria
Aqui é o mar-aquém do desamor frio
Aquém-mar do ódio do destino sombrio

Sombrio corre o sangue derramado
No mar-aquém de tanta luta devotado
Mas o sangue continua rubro a ferver
Inspirado nos Orixá que nos faz crescer

Crescer na esperança do aquém e do além
Do continente e da pele de alguém
Lutar é crescer no além e no aquém
Afirmando a liberdade da raça amém

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Amelinha Teles é uma jornalista e escritora brasileira que participou da militância contra a Ditadura Militar, foi presa e torturada pelo  DOI-Codi , e desde então é uma das principais vozes que denunciam os abusos sofridos durante o regime.
Amelinha desenvolve um trabalho de militância feminista histórica.
É diretora da União de Mulheres de São Paulo, coordenadora do Projeto Promotoras Legais Populares, integra o Conselho Consultivo do Centro Dandara e é autora de diversos livros sobre o tema. Ela também integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e é assessora da Comissão da
Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”.

Este projeto foi realizado com apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura.

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