Reflexões sobre como se produz teatro hoje

por Renan Ferreira

“A cena de abertura é muito eloquente das relações intra elenco, materializada na relação do Augusto (a besta assalariada) com o Euzébio, que é de vomitar. É uma relação tipicamente brasileira. De um lado nós temos um ator que se considera profissional e reclama de salário porque gostaria de receber por ensaio a mesma coisa que receberia por apresentação. Estabelecida esta chave, que é importantíssima para as relações intra elenco, nós temos o Euzébio como o porta-voz e agente da realidade, o único que tem o pé no chão, que de fato é trabalhador.(…) O estrangulamento econômico é o principal tema da peça como um todo. Na primeira entrada você já sabe que eles estão liquidados, falidos, e esta falência vai se materializando na retirada dos móveis, do cenário e, depois, da iluminação. (…) O registro é ideológico total. São sonhos de inserção por sucesso no mundo capitalista. Com exceção provável do Euzébio, todos eles, do produtor até a Nara, estão inseridos no mundo capitalista, não questionam o capitalismo e ignoram o fato de que vivem numa ditadura.”
Iná Camargo Costa em entrevista para Paulo Fávari em
“Conversas sobre Um grito parado no Ar”

O trecho do qual Iná se refere é o mesmo gravado em áudio logo acima. A primeira cena da dramaturgia de Guarnieri já revela talvez os dois principais assuntos de todo espetáculo: a censura econômica imposta pela ditadura àqueles artistas e a alienação do grupo sobre sua real condição. Hoje, quarenta e oito anos após a estreia do espetáculo, nos encontramos sofrendo com os mesmos problemas mas com novas complexidades. Nas décadas de 60 e 70, mesmo sob período de ditadura militar, o teatro ocupava um enorme espaço do cotidiano cultural do povo. Boa parte dos espetáculos da época, mesmo sem ter os subsídios estatais que conhecemos hoje, como a Lei de Fomento ao Teatro, se sustentavam por bilheteria. As peças eram apresentadas de terça a domingo com duas apresentações em alguns dias, completando dez sessões por semana com os teatros lotados, como conta Othon Bastos em áudio adiante na sala.

A Ditadura Civil-militar brasileira drenou não só a possibilidade de sustentação financeira dos artistas, mas também a presença do público nos teatros. Despolitização através de um projeto de deseducação social que resultou também no esvaziamento das plateias de hoje. O nome da sala evoca a presença do grande ator Flávio Migliaccio, que veio de origem humilde, foi membro do Teatro de Arena e teve um final trágico em 2020. Flávio representa, para nós, não só a devoção de um artista-cidadão ao seu ofício, mas também o retorno do teatro à classe trabalhadora como única possibilidade da sua reconstrução. Nas palavras de Amir Haddad: “Não se trata só de todos os artistas serem operários,mas também de todos os operários serem artistas”.

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Quem Sou?

Meu pai tinha muita dificuldade de dar comida para a filharada toda. A gente não tinha dinheiro para comer, comia banana… A gente ia se virando. Não teve isso de “vai ser doutor”, era “vai trabalhar para ganhar um dinheirinho”. E custei para ganhar esse dinheiro. Por isso, fiz um pouco de tudo. Fui pedreiro, eletricista, marceneiro, mecânico, balconista. Houve uma época em que ficava na porta daquelas lojas próximas à Estação da Luz (em São Paulo), chamando a freguesia. Também fui engraxate.

Um dia, andando perto da igreja de Tucuruvi (bairro de São Paulo), ouvi umas vozes. Era um grupo do teatrinho da igreja. Entrei, sentei e comecei a assistir à apresentação. Gostei tanto do que vi que fui falar com o ator principal, disse que era capaz de fazer aquilo. Foi engraçado, porque ele disse: “Faz pelo amor de Deus que não aguento mais!” A partir desse dia, fiquei no lugar dele.

Sempre tenho a vontade de fazer as crianças felizes, pois são os seres humanos mais próximos da pureza, longe de serem corrompidos pela sociedade.

Não gosto desse endeusamento do artista. A profissão de ator é a mesma coisa de um pedreiro, de um marceneiro.

Acho que, se não brincamos nessa vida, tudo se torna insuportável.

Flávio Migliaccio

Este projeto foi realizado com apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura.

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